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O que são gliomas de baixo grau?

jun 20, 2018

1) O que são gliomas de baixo grau?

Os gliomas difusos de baixo grau constituem uma entidade rara de tumores primários do cérebro, de
carácter infiltrativo e de crescimento lento, que têm origem nas células da glia, que são células de
suporte do sistema nervoso central.


2) Quais são os principais sinais e sintomas da doença?

Os gliomas difusos de baixo grau apresentam um período silencioso e um período sintomático.
Mais de 90% dos casos são diagnosticados no período sintomático e em 70-90% dos casos a
primeira manifestação é uma crise convulsiva inaugural.
3) Quais são as principais causas (ambientais, genéticas) e fatores de risco individuais para
o desenvolvimento de gliomas de baixo grau?
Não existem causas identificadas para este tipo de tumores cerebrais.
Os únicos factores de risco conhecidos são síndromes genéticos familiares e a exposição prévia a
radiação ionizante em alta dose.


4) Qual a prevalência/incidência desta doença em Portugal e no mundo? Sabe-se se tem
vindo a aumentar? Existe uma maior prevalência em algum género ou faixa etária? Se
sim, sabe-se porquê?

A incidência dos gliomas difusos de baixo grau no mundo ocidental é de 1/100 000 pessoas-ano.
Relativamente à prevalência e, sendo esta o produto da incidência pela duração da doença (média
estimada de 10 anos), esta é de cerca de 10/100 000.
Apenas tem vindo a aumentar porque há um maior diagnóstico deste tipo de tumores numa fase
silenciosa, pelo maior acesso da população em geral aos meios complementares de diagnóstico,
nomeadamente à ressonância magnética.
A idade média de aparecimento destes tumores é aos 37 anos e a incidência é maior no sexo
masculino e na raça caucasiana.


5) Para o estabelecimento de um correto diagnóstico, que tipo de exames é necessário
realizar? São exames especialmente invasivos?

O diagnóstico é feito através de ressonância magnética crânio-encefálica, podendo ser
complementada por ressonância funcional e tratografia que são exames de avaliação da
neuroanatomia funcional individual.
É imprescindível uma avaliação neuropsicológica para avaliar alterações cognitivas não detectadas
num exame neurológico simples.
Nenhum destes exames é invasivo.


6) Quais são as abordagens possíveis? A cirurgia é obrigatória?

De acordo com as guidelines actuais, como forma de diminuir a transformação maligna e aumentar
a sobrevida destes doentes, deverá ser assumida uma atitude agressiva com a remoção cirúrgica
máxima, quando possível, como primeira linha de tratamento.
A cirurgia com o doente acordado permite diminuir o risco de disfunção neurológica ao poupar as
estruturas cerebrais funcionalmente activas, potenciando a remoção cirúrgica máxima. Constitui,
por isso, um método fiável para o tratamento dos gliomas difusos de baixo grau, combinando o
benefício oncológico com a segurança neurológica, permitindo aos doentes manter o nível de
funcionalidade. O tratamento é muitas vezes complementado com a realização de terapêutica
adjuvante (radioterapia e/ou quimioterapia).


7) Qual é o prognóstico da doença, em termos de sobrevida?

A sobrevida global tem vindo a aumentar, sendo actualmente de 10-20 anos, graças a uma
abordagem terapêutica precoce e seriada, permitindo prevenir ou adiar a transformação maligna
destes tumores cerebrais.
Este aumento da sobrevida só tem significado se o indivíduo mantiver a qualidade de vida. E o
objectivo principal é transformar um glioma pré-maligno com evolução imprevisível numa doença
tumoral crónica controlada em doentes que mantêm uma vida familiar, social e profissional activas.


8) O que falta ser feito em prol destes doentes? Existe alguma lacuna ou possibilidade de
melhoria no nosso país? São esperados avanços para breve?

Quer em Portugal, quer na Europa, falta uma referenciação dos gliomas difusos de baixo grau para
centros multidisciplinares especializados no tratamento médico-cirúrgico desta patologia.
Os avanços esperados são na área da biologia molecular, de forma a individualizar a estratégias
terapêuticas a cada doente de acordo com a sua genética.


9) Relativamente ao encontro previsto para 22 e 23 de junho, quais são os seus principais
objetivos e os temas tratados? Que importância tem o evento para os profissionais da
área?

A European Low Grade Glioma Network (ELGGN) é uma organização europeia activa, que junta
centros cirúrgicos e neuro-oncológicos com equipas dedicadas ao tratamento dos gliomas difusos de
baixo grau. Apesar de todos estes centros estarem primariamente envolvidos na cirurgia com o
doente acordado, o objectivo é juntar todas as especialidades envolvidas nesta patologia:
Neurocirurgia, Anestesiologia, Biologia Molecular, Radioterapia, Oncologia, Terapia Ocupacional,
Neurologia, Neurorradiologia, Neuropsicologia e Linguagem.
Há um encontro anual que envolve os mais prestigiados especialistas mundiais e que cada ano tem
lugar numa diferente cidade europeia.
O principal objectivo deste grupo é a criação de uma plataforma onde clínicos e investigadores se
possam encontrar e discutir o tratamento dos gliomas difusos de baixo grau, partilhar informação e
experiência, de forma a potenciar a participação em estudos multicêntricos e homogeneizar as
formas de actuação na Europa e no mundo.

Catarina Viegas